SBS 2025

 

Durante o 22º Congresso Brasileiro de Sociologia, da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) na USP (São Paulo, Brasil), o MTTM realizou o Grupo de Trabalho 11 "Mobilidades Socioespaciais e Infraestruturas". A coordenação foi de Alexandre Almeida de Magalhães (UFRGS), Bianca Freire-Medeiros (USP) e Palloma Menezes (IESP-UERJ). O GT11 contou com 5 sessões, entre os dias 16 e 18 de julho de 2025.

SBS2025

Segue a lista dos textos discutidos ao longo dos encontros:

Sessão 1 – Infraestruturas de transporte e experiências de pesquisa móveis

Coordenadora Bianca Freire-Medeiros (USP) e debatedor Ricardo Barbosa da Silva (Unifesp).

Apoena Dias Mano (USP) – Pesquisando em movimento: etnografias móveis em infraestruturas de transporte

Resumo: A pesquisa de campo em infraestruturas de transporte tem a capacidade de enquadrar a mobilidade urbana para além de seus aspectos técnicos, a reconstruindo enquanto objeto sociológico. O estudo das infraestruturas pode se beneficiar das etnografias móveis, compreendidas como observações participantes que seguem os protocolos metodológicos e epistemológicos da chamada virada das mobilidades e que permitem acompanhar os deslocamentos e captar as percepções, sentidos e representações dos usuários. Colocamos em perspectiva duas etnografias móveis que têm nas infraestruturas urbanas de transporte elementos críticos para refletir sobre as desigualdades socioespaciais. A primeira analisa, em perspectiva multissituada, políticas urbanas transnacionais em Medellín, Colômbia e no Rio de Janeiro, encontrando suas ambivalências durante um deslocamento em teleféricos. A segunda pesquisa investiga as experiências cotidianas de moradores das periferias no transporte público de São Paulo, a partir da produção de um filme documentário gravado nos ônibus da cidade. Pretendemos demonstrar as possibilidades analíticas que surgem da articulação da observação direta com a participação ativa e compartilhada nos deslocamentos dos sujeitos da pesquisa, fazendo das etnografias móveis ferramentas produtivas para compreender processos sociais de segregação socioespaciais e as múltiplas formas que os sujeitos negociam e interpretam as infraestruturas urbanas em seu cotidiano.

Aline de Almeida Hoche (UERJ) – Circulação no Céu: mobilidade, acesso e o “navegar” pela precariedade no Morro do Céu

Resumo: Em 2019, passo a frequentar como professora de História, três vezes por semana, a favela do Morro do Céu, localizada na zona norte da cidade de Niterói, sem possuir veículo particular, dependo da única linha de ônibus disponível para adentrar ao território e chegar até a escola que leciono. A problemática que vivencio então, e que grande parte dos moradores da região enfrentam diariamente, é me locomover com o 26A, a linha de ônibus que realiza o trajeto Morro do Céu X Terminal Rodoviário, no centro de Niterói, esse ônibus circula com horários irregulares e com intervalos que podem chegar a uma hora e trinta minutos. A partir da minha experiência semanal como usuária desse meio de transporte e de conversas com alunos e ex-alunos da escola direciono o olhar para a questão da mobilidade e da circulação na cidade, buscando analisar os desafios que jovens moradores de uma região periférica de Niterói enfrentam para acessar lugares para além daquele que habitam e questiono se para além da desigualdade econômica e social que permeia a construção das cidades, existe também desigualdade na mobilidade e na circulação de corpos periféricos, negros e femininos e como navegam pela precariedade prosseguindo com seus projetos de vida. Para tal estudo, analiso as rotinas de jovens moradores do Morro do Céu através de entrevistas realizadas entre os anos de 2023 e 2024 tendo como base teórica autores que refletem sobre o paradigma das mobilidades e do acesso a lugares e serviços.

Texto Completo de Aline Hoche

Cintia Maria Frazão (UERJ), Giuliana Lopes Moreira da Silva (UERJ), Gabriel Ferreira Fernandes (UFRJ) & André Luis dos Santos de Oliveira (UFRJ) – Acesso Negado: Desigualdade na Mobilidade Urbana e Formas de Resistência

Resumo: Este artigo analisa a mobilidade urbana e a resistência à falta de acesso ao transporte público em territórios vulnerabilizados do Rio de Janeiro. Objetiva refletir sobre o direito ao transporte e as alternativas criadas pelos moradores para superar a precariedade desse serviço essencial. A metodologia adotada foi uma revisão bibliográfica, visando compreender as relações entre mobilidade, desigualdade, violência e acesso à cidade. A mobilidade urbana é fundamental para o exercício do direito à cidade, permitindo o acesso a serviços essenciais como saúde, educação e lazer. A Constituição de 1988 e a Política Nacional de Mobilidade Urbana reconhecem o transporte coletivo como serviço público essencial e direito social.​ Entretanto, apesar de políticas públicas, a equidade no acesso ao transporte público é prejudicada por desigualdades territoriais. Além disso, a violência urbana agrava a vulnerabilidade desses territórios, tornando a mobilidade um desafio diário.Diante da carência do transporte público formal, comunidades organizam sistemas próprios. A mobilidade ativa, com deslocamentos a pé ou de bicicleta, também é comum nessas áreas. Organizações comunitárias buscam influenciar políticas públicas para promover a inclusão e a justiça social no acesso à mobilidade urbana. Este artigo visa contribuir para a compreensão de como a precariedade no transporte público e a violência urbana afetam a mobilidade e o acesso a direitos fundamentais na cidade do Rio de Janeiro.

Texto Completo de Cintia Frazão et al

Nido Farias dos Santos (UFAL), Fernando de Jesus Rodrigues (UFAL) & Paulo Henrique Matos Andrade (USP) – “O complementar virou sistema”: ascensão das vans e a regulação do transporte intermunicipal em Alagoas

Resumo: Analisamos o desenvolvimento de conflitos entre vans, táxis, ônibus e lotações que fazem transporte intermunicipal em Alagoas, interessados no modo como produziram regulações ao longo dos últimos 30 anos. Partimos do pequeno município de Santo Domingo, na zona da mata alagoana, em uma etnografia coletiva, móvel e multissituada que reconstrói trajetórias de pessoas e objetos. Enfocamos mudanças nas necessidades de deslocamento de populações rurais e urbanas e o surgimento de mercados marginais de transporte, reconstruindo a mudança de status de alguns clandestinos para o de serviço complementar feito por vans, dominante no setor. Como tais mudanças afetaram as maneiras como o governo do estado, o município e os próprios transportadores regulam esses serviços? Argumentamos que o transporte entre zonas rurais e urbanas feito por “peruas”, nos anos 1980, depois “Kombis” e “Bestas”, sofreu transformações nos anos 2000. Os serviços de transporte deixaram de estar dependentes diretamente do coronelismo que gravitava o usineiro local. Conectamos mudanças nas infraestruturas e no status de transportadores à mutação de regime político para o coronelato, que regula a distribuição de cargos municipais, estruturados sobre a competição e controle dos votos dos pobres, e controla mercados urbanos lucrativos. A gestão desses mercados também abarca grupos armados aliados de atores que atuam na escala municipal em favor de uma liderança ou família política local ou regional nos transportes.

Diego Edmilson Peralta (USP), Juliana de Alcantara (USP) & Bruno Vieira Borges (USP) – Ancoradouros urbanos: notas metodológicas sobre pesquisa social em ônibus

A virada das mobilidades aponta para as múltiplas interdependências entre diferentes formas de deslocamento, sendo os meios de transporte objetos de pesquisa privilegiados na emergência desse giro móvel nas Ciências Sociais. Se o carro e o avião têm recebido maior atenção nesse campo de estudos, o ônibus, apesar de sua importância no Sul Global, permanece ainda pouco explorado. No Brasil, uma política de Estado rodoviarista consolidou a utilização dos ônibus nos sistemas de transporte urbano. Ainda assim, pesquisas em/sobre ônibus que consideram os contextos diversos e desiguais das cidades latino-americanas são pontuais (Caiafa, 2002; Jirón, 2011; Vidal e Souza, 2018). Para avançar na compreensão desse objeto para além de sua dimensão técnica, nos valemos do conceito de "ancoradouro urbano" como ferramenta metodológica para examinar fluxos e regimes de mobilidade em infraestruturas como terminais e pontos de ônibus. Um ponto de ônibus em São Paulo, a rodoviária de São Carlos (SP) e a sede da Gaviões da Fiel de onde partem caravanas de torcedores configuram referentes empíricos a partir dos quais examinamos como infraestruturas nas quais fluxos de mobilidade se cruzam são moldadas por regimes de controle, influenciando qualitativamente os deslocamentos e interações sociais. A abordagem proposta busca ampliar a reflexão metodológica no giro móvel, superando interpretações tecnocráticas e evidenciando dinâmicas de circulação, restrição e apropriação dos espaços urbanos​.

Fernando Henrique Guimarães Barcellos (ACERJ) & Leila Maribondo Barboza (Niterói de Bicicleta e UFF) – Infraestrutura cicloviária e seus impactos sociais no município de Niterói/RJ

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo estudar os impactos de implementação de estrutura cicloviária e sua relação com o crescimento do número de ciclistas no município de Niterói. O estudo abrangeu o período de 2013 a 2024. Para a realização do estudo foram selecionadas cinco regiões com infraestrutura cicloviária e grande circulação de bicicletas. Foram analisados os impactos relacionados a dinamiza social, política, econômica, demográfica, do esporte, lazer, turismo e bem-estar da população. Foi usado como fonte leis, decretos, relatórios de contagem de ciclistas, depoimentos, estudos acadêmicos, reportagens de jornais e entrevistas. Foi possível perceber diversos impactos com a implementação de infraestrutura cicloviária (ciclovias, ciclofaixas, rotas de cicloturismo, bicicletários e sinalização). O número de ciclistas cresceu nas vias, o número de mortes diminui. Aumentou o número de mulheres e jovens pedalando. Importantes vias do município foram requalificadas, diminuindo o espaço do transporte motorizado individual em prol da mobilidade por bicicleta.

Oliver Cauã Cauê França Scarcelli (UNESP) & Lucas Coutinho Marcelino da Silva (USP) – A formação da segregação urbana em São Paulo (1870-1930): transporte, classe e raça

Resumo: Este estudo investiga a segregação urbana em São Paulo (1870-1930), analisando quais classes e grupos raciais foram atendidos pela nascente rede de transporte. Mapeamos a expansão urbana, a rede de avenidas e de bondes e a distribuição residencial de diferentes grupos sociais. Identificamos quais infraestruturas foram construídas e quais classes e raças se beneficiaram delas. Baseamo-nos na tradição marxista da renda fundiária (Jean Lojkine, Flávio Villaça) e na concepção do espaço como produto social e campo de disputa (David Harvey, Manuel Castells). Adotamos ainda o conceito miltoniano de intencionalidade da produção espacial. Incorporamos a dimensão racial, essencial no Brasil pós-escravidão, como destacado por Florestan Fernandes. Metodologicamente, realizamos uma ampla revisão bibliográfica e georreferenciamos redes de transporte e grupos sociais, gerando mapas que evidenciam a segregação urbana. Os resultados indicam que a infraestrutura beneficiou elites brancas, reforçando desigualdades socioespaciais persistentes, em linha com a teoria lefebvriana da segregação inerente ao capitalismo.

Sessão 2 – Infraestruturas sociotécnicas de trabalho e lazer: mobilidades de dados, coisas e pessoas

Coordenadora Maria Alice de Faria Nogueira (UFRJ) e debatedor Guilhermo Aderaldo (Unesp).

Diego Vicentin (UNICAMP) – Mobilidade e Vigilância: o casamento das redes 5G com as tecnologias de Inteligência Artificial

Resumo: O casamento entre as redes móveis de quinta geração (5G) e os sistemas de Inteligência Artificial (IA) vem sendo anunciado como algo que vai alterar profundamente os modos de gestão da vida nos centros urbanos e nas áreas rurais. A união 5G-IA é parte fundamental das promessas de um novo ciclo de acumulação capitalista, que aprofunda a centralidade da informação e da vigilância enquanto meios de produção econômica, tecnológica, de corpos e de subjetividades. Este ensaio parte de uma construção analítica sobre o modo como a mobilidade é constituída na operação das redes de comunicação móvel para descrever a relação desta infraestrutura com a vigilância que serve à extração e ao tratamento de dados para fins de monetização e apropriação de mais valia. O ensaio alerta para o recrudescimento da vigilância como meio de extração de valor e exercício de controle sobre a população e termina afirmando a importância do direito de “ficar de fora”.

Texto Completo de Diego Vicentin

Paulo Henrique Matos Andrade (USP) – Veículos como Infraestruturas: Entre a necessidade e criatividade de serviços básicos no sertão nordestino

Resumo: Mecânicos nas zonas rurais de municípios em regiões de fronteira do Sertão nordestino, a saber: Alagoas e Pernambuco, se uniram para desenvolver projetos de modificação aos poucos veículos dos quais tinham acesso no início dos anos 2010. Criatividade ancorada na necessidade da população do campo à dispor de avanços tecnológicos para mobilidade e serviços básicos cotidianos, as modificações realizadas em bicicletas e motos, tratores e caminhonetes ganharam a confiança dos moradores sertanejos e se tornaram a base de pequenas mobilidades de pessoas e mercadorias, comércio de alimentos e produtos do lar, tal qual serviços de terraplanagem, construção de pequenos açudes e o lazer, elevando o desenvolvimento socioeconômico da população. A partir da relação híbrida dos operadores e suas máquinas, objetiva-se neste artigo apresentar: (i) os diferentes veículos como principais infraestruturas de mobilidade, serviços básicos e lazer nas margens rurais, e (ii) os arranjos econômicos locais, possibilitados pelos veículos. O registro das falas, ações, cenários e veículos adaptados, enquanto fenômeno, é fruto de intensa interlocução informal realizada nos dois últimos anos junto a diferentes profissionais da mecânica em oficinas rurais, através de etnografia móvel da pesquisa de dissertação Sertões ‘on the move’: velhas caminhonetes e a mobilidade de pessoas e mercadorias em Alagoas.

Lucas Antonio dos Anjos Nascimento (Unicamp) – "Marcha no progresso": mobilidades socioespaciais de entregadores de aplicativos na cidade de Osasco

Resumo: O objetivo do paper é apresentar e discutir as mobilidades socioespaciais de entregadores de aplicativos, a partir das práticas, deslocamentos e estratégias de permanência em uma praça de Osasco, São Paulo, que têm em comum a passagem pela prisão e tornaram-se entregadores de aplicativos pela falta de oportunidades no mercado formal de emprego após o cárcere. Apoiado na teoria do giro móvel e da metrópole do capital de rede (Freire-Medeiros, 2024), a discussão aborda a circulação dos entregadores entre centros e periferias; a circulação de mercadorias lícitas e ilícitas no espaço da praça; e a mobilidade social alcançada pelos entregadores a partir da informalidade do trabalho de aplicativo. Para isso, foi realizado um trabalho de campo ao longo de 8 meses em uma praça da cidade de Osasco, onde observou-se as estratégias dos entregadores para permanecerem no espaço; as estratégias para continuarem "rodando" com os aplicativos na rua; e as práticas, sociabilidades, deslocamentos e circulações desses indivíduos durante a jornada de trabalho. Constatou-se que a partir dessa forma de trabalho há a possibilidade de permanecer fora da prisão, ainda que as práticas ilícitas sejam parte do cotidiano como uma forma de sobrevivência diante a precariedade do trabalho de aplicativo. Conclui-se que na metrópole do "capital de rede" a circulação dessas pessoas e de mercadorias, inclusive dentro de dispositivos de segurança, é uma alternativa mesmo diante à precariedade do trabalho.

Carolina Alvim de Oliveira Freitas (USP) – O caso da indústria de serviços para manutenção de infraestruturas imobiliárias

Resumo: Buscamos investigar o mercado de serviços empregados no ciclo operacional de edifícios como estudo de caso. Tais serviços, chamados atualmente “facilidades” ["facilities services"], se referem à gestão, operação, manutenção e conservação da funcionalidade da edificação e, desse modo, estão atrelados diretamente ao valor de uso do espaço imobiliário. Trata-se de uma cadeia de suprimentos e prestações a condomínios, como limpeza, recepção, estacionamento, jardinagem, manutenção predial, elevadores, entre outros. Nossa pesquisa demonstra que esse mercado de "facilidades" acompanha o crescimento dos negócios imobiliários na metrópole de São Paulo, formando uma experiência imbricada entre trabalho humano vivo e renda imobiliária. Defendemos que se trata, em suma, de um caso que demonstra como processos de superexploração do trabalho e de capitalização da propriedade se conjugam na economia urbana neoliberal na periferia do capitalismo. O "inchaço do terciário", característico da economia urbana brasileira no século XX, é, a partir do crescimento do mercado de facilidades, atravessado por uma hiper-gestão das utilidades acopladas aos empreendimentos de venda e aluguel de imóveis comerciais e residenciais. Desse modo, atividades que classicamente foram interpretadas como improdutivas e descapitalizadas são objeto de uma industrialização de serviços instada pelas novas demandas e estratégias do mercado imobiliário.

Henrique Chaves (GOVCOPP-UA) – Plataformas de mobilidade: Os espaços físicos e comunitários nos movimentos sociais de bairro

Esta proposta debruçar-se-á sobre a relação entre dois espaços comunitários locais e os movimentos sociais de bairro (MSB) que lutam por justiça urbana, social, ambiental e de mobilidade nos seus territórios. Nomeadamente, como estes espaços situam, organizam e movem estes movimentos. Nesta proposta, discutir-se-á a relação de espaços físicos e movimentos de bairro situados em dois territórios distintos: bairros dos Alfinetes, Salgadas e Marquês de Abrantes (Marvila, Lisboa, Portugal); e Jardim Lapenna (São Miguel Paulista, São Paulo, SP, Brasil). Em Lisboa, o foco será sobre a Biblioteca de Marvila e o Grupo Comunitário 4 Crescente. A Biblioteca de Marvila e em São Paulo, o destaque será para o Galpão ZL e para a mobilização contínua do Plano de Bairro (PB) do Jd. Lapenna. Ambos os espaços comunitários aqui retratados são fixos nos seus territórios, mas simultaneamente são plataformas de mobilidades de ideias, pessoas, recursos e reivindicações da comunidade (às vezes por vias mais céleres e em contato direto com os decisores políticos). Estes espaços são palco e camarins das atividades políticas destes MSB, são espaços móveis que tornam estes territórios visíveis nas cidades onde estão inseridos. São ancoradouros que se movem com os movimentos sociais que deles se apropriam.

João Alcantara de Freitas (Unirio) & Luma Mundin Costa (USP) – Documentos em movimento: uma análise sociotécnica da mobilidade de políticas na resposta à COVID-19 em São Paulo

Resumo: Este trabalho enfrenta o desafio metodológico de analisar a mobilidade de políticas públicas, problematizando concepções que a representam como processo linear e uniforme - abordagem que negligencia relações de poder, assimetrias no acesso a infraestruturas e a natureza contingente de sua formulação. Tomando como estudo de caso as políticas de enfrentamento à COVID-19, adota-se um marco teórico-metodológico que articula a sociologia das mobilidades com a abordagem de "seguir os materiais", analisando especificamente a tradução das diretrizes da OMS em normativas estaduais e municipais em São Paulo. A análise revela três dinâmicas centrais: (1) a centralidade das plataformas digitais como novas arenas de circulação política durante a pandemia; (2) as desigualdades na capacidade de diferentes atores governamentais reinterpretarem diretrizes globais; e (3) o uso estratégico de documentos técnicos como ferramentas de legitimação política. Os resultados demonstram que a ruptura dos fluxos físicos intensificou a dependência de infraestruturas informacionais digitais, mantendo porém hierarquias pré-existentes nos processos de mobilidade de políticas. O estudo contribui para os debates sobre governança em crises ao evidenciar como contextos de exceção aceleram transformações nos mecanismos de circulação de políticas, sem necessariamente alterar suas estruturas de poder subjacentes.

Sessão 3 – Migrações, Refúgios e Suas Redes

Coordenadora Camila Maria dos Santos Moraes (UNIRIO) e debatedora Karina Quintanilha Ferreira (USP/Fronteiras Cruzadas)

Caio da Silveira Fernandes (CEBRAP) & Maria Cláudia S. de Paiva (PUC-SP) – O Brasil na rota das migrações globais para os EUA e Canadá: os abrigos para migrantes da RMSP como infraestruturas de trânsitos migratórios

Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar os papéis que as infraestruturas urbanas da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) desempenham no trânsito migratório para os EUA e o Canadá. Mais especificamente, enfatizamos como abrigos temporários para migrantes têm sido usados como infraestruturas de mobilidade por pessoas provindas da Ásia, África e Caribe. De um recurso de acomodação, como prevêem as concepções originais dos abrigos, as práticas migrantes atribuem a eles novas funções ao articulá-los a uma extensa rede migratória presente no continente. Como Collyer (2007) e Khosravi (2010) argumentam, quando os controles de migração se tornam mais sofisticados, as rotas se tornam mais fragmentadas e múltiplas em suas dimensões temporais e espaciais. O argumento do texto é que mesmo em cidades distantes das fronteiras podem existir infraestruturas fundamentais que compõem diversas rotas migratórias. Teoricamente, nos valemos do cruzamento teórico entre os estudos de mobilidades (URRY, 2007; CRESSWELL, 2010; SHELLER, 2017; 2018; FREIRE-MEDEIROS e LAGES, 2020) e o das infraestruturas (STAR, 1999; LARKIN, 2013; JUNG e BUHR, 2021). Metodologicamente, nos baseamos em entrevistas com roteiro semi-estruturado com voluntários, funcionários e migrantes de dois abrigos. O primeiro está situado na cidade de Guarulhos e é exclusivamente voltado ao atendimento de afegãos. O segundo, em operação há 50 anos, está no centro da cidade de São Paulo e não possui restrição de nacionalidade.

Giovanna Lucio Monteiro Macedo (UERJ) – Habitando construções e ruínas: Casas e Infraestruturas no campo de refugiados Burj el-Barajneh e no Complexo da Maré

Resumo: Essa pesquisa propõe a casa como um ancoradouro analítico para observar o continuum entre construção e ruínas que caracterizam as formas de construir infraestruturas em margens urbanas. Parto de uma etnografia de arquivo, com enfoque em fotografias e jornais, para analisar os casos do Complexo da Maré (RJ) e o campo de refugiados de Burj el-Barajneh (Beirute). Meu objetivo é entender a expansão, o crescimento e a verticalização contínua, ainda que através de uma série de conflitos e abandonos. Através dos arquivos entendo as infraestruturas como produtoras de uma paisagem que é habitada em movimento mas que se revela para a pesquisadora - em sua materialidade e pelas fotografias - como estática. A construção das casas, da rede de água, de luz e de grandes rodovias carregam promessas e projeções de um futuro que é, ao mesmo tempo, sempre melhor e inegavelmente conflituoso. A partir de resultados preliminares de pesquisa entendo que o desenvolvimento urbano desses espaços acontece de forma cíclica, em um continuum entre construções e ruínas que são atravessados por ciclos de violência urbana. Assim, todo processo construtivo tem como horizonte de expectativa a certeza de uma ruína futura, produzida ora pelo descaso público, ora por explosões de ciclos de violência - como operações policiais, intervenções e guerras. Essa temporalidade cíclica se revela na paisagem e na forma de construir as infraestruturas.

Texto Completo de Giovanna Macedo

Christiane Machado Coêlho (UnB) – Cidades e Mobilidade. Processos urbanos e dinâmicas sociais. A situação dos brasileiros em Portugal

Resumo: Os processos migratórios estão relacionados a construção das sociedades contemporâneas. Em função da crise da sociedade salarial (Robert Castel, 1995), do funcionamento da sociedade em rede (Manuel Castells, 1999) e do dinamismo dos fluxos migratórios (Pena Pires, 2003), estas temáticas podem ser relacionadas na compreensão dos processos que estão em curso na sociedade atual (Pierre Rosanvallon, 1995). Há diferentes processos de integração dos imigrantes às cidades.

Thalissa Cavejon (UFSC) – A imigração em Joinville/SC e suas faces no Mercado de trabalho: Mapeando as desigualdades, intersecções de gênero e raça

Resumo: Este trabalho em nível de doutorado, visa observar a cidade de Joinville/SC, onde reflete uma questão global sobre as contradições sociais presentes na inserção social/laboral dos imigrantes. Conceitua-se que, a migração é o resultado de forças estruturais e sociais, que por vezes, não são escolhas livres, mas uma diáspora forçada por crises e fatores históricos, onde o imigrante é visto como força de trabalho temporária, com direitos frequentemente subordinados às fronteiras políticas e econômicas (Sayad,1998). Na teoria das migrações, a tensão entre a aceitação e a exclusão, e que os migrantes frequentemente enfrentam discriminação e estigmatização, na condição de ser um "outro", não sendo apenas uma questão de diferença cultural ou racial, mas também um reflexo das dinâmicas de poder e das percepções sociais (Sayad,1998). Sob esta perspectiva das migrações, a pesquisa foca na análise da inserção no mercado de trabalho dos migrantes internacionais observando questões interseccionais (Collins, 2019), observando a ausência de tais dados nos documentos oficiais do município. A metodologia da pesquisa se desenvolverá por meio de análise documental, bibliográfica e estatística, cruzando as informações para análise das posições sociais no mercado de trabalho formal a partir da Classificação Brasileira de Ocupações. Desta forma, a hipótese é de que marcadores de raça e gênero, moldam a experiência migratória no mercado de trabalho joinvilense.

Vinícius de Souza Mendes (USP) & Gabriela da Silva Figueiredo Rocha (USP) – Festas como ancoradouros: os casos das festividades bolivianas em São Paulo e da Festa Confederada de Santa Bárbara d'Oeste

Resumo: A partir do paradigma das mobilidades (Urry, 2007), neste trabalho, pretendemos analisar festas migrantes em dois contextos distintos: o primeiro diz respeito às festas Fé e Cultura e a Nosso Folclore e Fé, as duas maiores festividades bolivianas em São Paulo, organizadas pelas entidades ACFBB e ACFIBB em 2024; o segundo à Festa Confederada em Santa Bárbara d’Oeste, que celebra a imigração de confederados dos Estados Unidos para o Brasil. Embora relativamente diferentes entre si, elas guardam semelhanças em suas lógicas móveis, e podem oferecer novas possibilidades de análise. O objetivo é mostrar, a partir do debate do paradigma das mobilidades, como essas festividades são espécies de estruturas temporárias que, por sua vez, são capazes de colocar pessoas, imagens, dinheiro, narrativas e ferramentas políticas em circulação ao seu redor. Para isso, lançamos mão do conceito de ancoradouro: ainda que se apresentem como eventos efêmeros, quando não restritos às suas “comunidades”, tomá-las dessa forma nos permite observar conexões urbanas, transnacionais e multiescalares estabelecidas para e em função da sua existência. Seu acontecimento pode informar sobre arranjos socioespaciais articulados em redes, cujas dinâmicas sociais, culturais, políticas e econômicas informam tanto sobre a produção transnacional do espaço urbano a partir das mobilidades de elementos tangíveis e intangíveis, como representações simbólicas, mercados diversos, atores políticos, imagens, entre outros.

Mauricio Piatti Lages (USP) & Guilherme Olímpio Fagundes (USP) – Contribuições da análise de redes para a sociologia das mobilidades

Resumo: Como a sociologia das mobilidades pode aproveitar das contribuições da análise de redes? Nossa proposta é tecer aproximações metodológicas e tratar a análise de redes como um tipo de “método móvel” (Büscher e Urry, 2009). Nas obras de John Urry, há uma ambiguidade essencial no uso da noção de rede. Ora a rede aparece como um operador analítico para dar conta de aglomerados e complexos sociotécnicos em diferentes escalas, na esteira de Möl, Law, Latour, Knorr-Cetina e de outros autores da Teoria do Ator-Rede (TAR) e dos Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), ora a rede aparece como uma técnica de análise e de mensuração das interações, laços ou conexões humanas. A exposição das linhagens e dos usos do léxico das redes na sociologia das mobilidades nos coloca diante de questões a serem respondidas — como, por exemplo, em uma teoria social que desconfia das noções de “estrutura” e de “sociedade” (Urry, 2000), qual o ganho de se valer da análise de redes? Sugerimos que o conceito de capital de rede, tal como proposto por Urry em Mobilities (2007), ao aproximar o capital social do léxico das redes, sugere uma saída analítica que se atém tanto à interpelação de sujeitos e objetos em movimento quanto às infraestruturas materiais e intangíveis que o constituem, escapando das antinomias convencionais e permitindo usos criativos em questão de método e teoria.

Sessão 4 – Fluxos entre Privado e Público, Legal e Ilegal

Coordenadora Palloma Menezes (IESP-UERJ) e debatedor Apoena Dias Mano (USP)

Ada Rízia Barbosa de Carvalho (USP) – Prisão-ancoradouro: Transbordamentos, atravessamentos e re-percussões

Resumo: Partindo de uma compreensão já consolidada na bibliografia dos estudos prisionais, que propõe implodir os localismos e desencarcerar a abordagem da prisão, meu objetivo é refletir sobre seus transbordamentos por meio das linhas de vida de pessoas que atravessam cotidianamente seus muros, ao mesmo tempo em que por ela são atravessadas. Para tanto, descrevo a trajetória de um interlocutor, que passou pela experiência de encarceramento e que, já em liberdade, continua circulando por instituições prisionais, como cogestor junto a essas instituições da correção de pessoas que se encontram na mesma situação em que um dia esteve. Para isso, conta seu testemunho de pessoa "ressocializada" que se tornou, entre outras coisas, pastor e empresário. Carregando em seus corpo experiências de punição, assistência e controle, se engaja ao dispositivo prisional, continuando a circular e compondo as múltiplas instituições, organizações e coletivos que constelam seu espectro. Estou propondo o argumento de que a forma como reorganizou suas trajetória e se (re)integrou a uma vida possível de ser vivida é mantendo a prisão como eixo que orienta seus projetos de vida. Por meio desse relato, argumento ser possível enquadrar a instituição prisional enquanto um ancoradouro – como uma infraestrutura socioespacial que fixa, ao mesmo tempo em que possibilita, e orienta, fluxos e projetos de vida de pessoas atravessadas pelas mais diversas experiências de carcerização.

Camila Luiza de Sena (UFRJ) & Rodrigo Salles Pereira dos Santos (UFRJ) –Por dentro e por fora da lei: a arquitetura híbrida de redes e mercados automotivos

Este estudo analisa as dinâmicas mercantis relativas a furtos e roubos de veículos, no estado de Minas Gerais entre 2015 e 2023, demonstrando a interseção entre legalidade e ilegalidade na criação e transformação de mercados automotivos. Combina métodos quantitativos e qualitativos, mobilizando revisão bibliográfica, análise de dados governamentais, observação direta ao longo de 4 meses e 9 entrevistas com profissionais de seguradoras, proteção veicular e agentes de segurança pública. Em diálogo com a sociologia econômica e a sociologia do crime, o estudo revela que a rede global de produção automotiva (RGPA) é estruturada sobre o fluxo contínuo de agentes, atividades e bens, lícitos e ilícitos, revelando sua interdependência e funcionalidade. Os resultados demonstram a existência de um segmento complexo de rede que conecta agentes públicos e privados, o comércio de automóveis e autopeças, leilões e mecanismos de regularização de veículos, e os mercados de seguros e de proteção veicular, evidenciando a relevância dos ilegalismos na criação e captura de valor na indústria automotiva.

Stefany Ciolfi de Souza (UFF) – Casa, Cidade e Incerteza: Estratégias Femininas Após o Comperj

Resumo: Este estudo analisa as dinâmicas mercantis relativas a furtos e roubos de veículos, no estado de Minas Gerais entre 2015 e 2023, demonstrando a interseção entre legalidade e ilegalidade na criação e transformação de mercados automotivos. Combina métodos quantitativos e qualitativos, mobilizando revisão bibliográfica, análise de dados governamentais, observação direta ao longo de 4 meses e 9 entrevistas com profissionais de seguradoras, proteção veicular e agentes de segurança pública. Em diálogo com a sociologia econômica e a sociologia do crime, o estudo revela que a rede global de produção automotiva (RGPA) é estruturada sobre o fluxo contínuo de agentes, atividades e bens, lícitos e ilícitos, revelando sua interdependência e funcionalidade. Os resultados demonstram a existência de um segmento complexo de rede que conecta agentes públicos e privados, o comércio de automóveis e autopeças, leilões e mecanismos de regularização de veículos, e os mercados de seguros e de proteção veicular, evidenciando a relevância dos ilegalismos na criação e captura de valor na indústria automotiva.

Jonas Tomazi Bicev (CEBRAP), Maria Eduarda de Jesus Carvalho (USP) & Marcos Vinicius Lopes Campos (CEBRAP) – Roubo e furto de veículos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Espaços urbanos em disputa, circulação na cidade e seu papel na configuração do crime

Resumo: O furto e o roubo de veículos vêm se consolidando como um dos mercados ilegais de maior crescimento na região metropolitana do Rio de Janeiro, provocando uma substantiva resposta estatal, expressa em apreensões, operações policiais e ampla cobertura midiática. Paralelamente, o fenômeno tem despertado o interesse de pesquisas que buscam compreender a produção de desigualdades e violências a partir das (i)legalidades das automobilidades como objeto de investigação sociológica. Inserida nesse esforço coletivo, esta pesquisa em andamento examina as interações entre furto e roubo de veículos, o controle territorial exercido por grupos armados – facções e milícias –, o uso da força e as infraestruturas urbanas, com foco na configuração de ruas e estradas. De que forma o controle territorial se relaciona para a distribuição espacial dos furtos e roubos? E como as configurações urbanas influenciam e se articulam com a dinâmica desses ilegalismos? Para responder a essas questões, combinamos a análise de dados quantitativos georreferenciados sobre a incidência desses crimes com uma pesquisa etnográfica multisituada, dedicada a compreender sua lógica e funcionamento. Os dados evidenciam o predomínio dos roubos sobre os furtos de veículos e a concentração de ferros-velhos e desmanches próximos a favelas controladas pela facção Comando Vermelho e às rodovias que atravessam a Baixada Fluminense.

Amanda Porto de Porto (PUCRS) – Remoção de pessoas em situação de rua: políticas de movimento, morte e precariedade

Resumo: Uma questão central nos grandes centros urbanos atualmente é o número expressivo de pessoas habitando as ruas. A literatura que encontramos sobre as vidas na rua apontam que a existência deste fenômeno é vista como um problema público por quem governa e habita as cidades. Nas últimas décadas houve um avanço considerável na criação de políticas públicas voltadas para as pessoas em situação de rua no país. Ao mesmo tempo emergem “incômodos” gerados pela presença destes corpos nas ruas. Muitas cidades adotam políticas de remoção destes sujeitos, colocam corpos em movimento pela cidade, promovem a circulação e aumento de condições precárias na vida das pessoas. A etnografia nos possibilitou conduzir a investigação das experiências de remoções na cidade de Porto Alegre/RS, desde a perspectiva das pessoas que foram atingidas pelas remoções. Andando junto a estes sujeitos, acompanhando ao banco, aos postos de saúde, aos espaços de confecção de documentos, nas praças, em abrigos e diferentes territórios da cidade, esta pesquisa foi desenvolvida a partir de métodos móveis, buscou apreender as experiências em movimento, em sua complexidade e na interdependência das relações no cotidiano. O movimento torna-se um dispositivo de poder, que racializa sujeitos, atua nas margens e administra a presença e a circulação na cidade.

Texto Completo de Amanda Porto

João Freire Rodrigues (UERN) – Candogueiros do Sertão: os táxis de lotação e a informalidade no transporte de passageiros entre Apodi e Mossoró-RN

Resumo: A pesquisa trata de analisar a situação do transporte de passageiros entre Apodi e Mossoró, feito por táxis de lotação que geralmente operam na informalidade. Candogueiro é uma expressão angolana que designa os veículos ligeiros que fazem o transporte regular de passageiros em Luanda, Angola. Tal como os candogueiros luandenses, os táxis apodienses constituem um tipo de transporte sem regulamentação por parte do estado e fazem parte da economia informal, sendo uma fonte de rendimentos para os proprietários e motoristas dos veículos. Por não ser um transporte regular não tem horários fixos nem pontos de parada estabelecidos, o que inclui na maioria das vezes deixar o passageiro na porta da casa ou no local de destino de acordo com a finalidade da viagem. Este tipo de transporte está presente em praticamente todos os municípios do Rio Grande do Norte e acompanha a desestruturação das linhas regulares de ônibus, com o fechamento de algumas empresas que vem ocorrendo desde a década de 1990. . A metodologia utilizada constou de uma revisão bibliográfica afim de delimitar o quadro teórico da pesquisa, partindo dos estudos já realizados em pesquisas anteriores e pela bibliografia sobre transporte, informalidade e regulamentação pelo estado. Procurar-se-á quantificar tanto o número de veículos que fazem o trajeto Apodi-Mossoró, bem como o número de passageiros transportados diariamente a fim de medir o impacto na economia local e na mobilidade entre os dois municípios.

Sessão 5 – Mercados, processos urbanos e suas mobilidades

Coordenador Alexandre Almeida de MagalhÃes (UFRGS) e debatedor Felipe Rangel Martins (UFSCar)

Indiara Carvalho dos Santos (UERJ) – "Progresso" e "Desenvolvimento": as dimensões multiescalares da Refinaria Duque de Caxias na produção material e simbólica da cidade

Resumo: Este trabalho tem o objetivo de analisar a construção da infraestrutura de petróleo na cidade de Duque de Caxias, a partir do desenrolar do tempo da obra da Refinaria Duque de Caxias (REDUC) para a cidade e suas tantas promessas políticas, de progresso e desenvolvimento. Inspirado na proposição de Larkin, que ressalta (2018) que “as infraestruturas se dirigem às pessoas que as usam, estimulando emoções de esperança e pessimismo, nostalgia e desejo, frustração e raiva, que constituem a promessa (e seu fracasso) como uma força emotiva e política”, este trabalho discute a temporalidade da expectativa e da promessa da infraestrutura do petróleo, além da sua dimensão multiescalar, no "local", para a cidade de Duque de Caxias, e no "nacional", para o país, a partir dos sentidos das categorias de “progresso” e “desenvolvimento”, que aparecem nos jornais de Duque de Caxias e do Rio de Janeiro para descrever as expectativas da obra em escala local e nacional. Para isto, trabalhei com análise dos jornais Folha de Caxias, Luta Democrática, O Municipal e Jornal do Brasil, a partir das palavras-chave “Refinaria Duque de Caxias”, entre o período de 1957 e 1972.

Gustavo Prieto (Unifesp) – Mudanças climáticas como fronteira de mercado: infraestrutura de iluminação, empresas sociais e mundo do crime na periferia de São Paulo

Resumo: A tese desta pesquisa etnográfica, realizada em uma quebrada paulistana desde 2021, é que as infraestruturas de iluminação são centrais para o projeto biopolítico (Gupta, 2015) e são expressões concretas de práticas espacialmente situadas que reproduzem e reforçam desigualdades (Freire-Medeiros, 2022) e segregação urbana (Alvarez, 2015). Para além dos processos de transformação social (Jacobson, 2007) e da transição energética e mesmo da retórica da atuação como mediador das ações que mitigam as mudanças climáticas, a Energia Vital, empresa social que tem como nicho de mercado as soluções socioambientais de infraestrutura de energia solar, produz , a partir infraestrutura urbano-ambiental, a mobilização de uma formação político-empresarial de circulação global, assentada no capital humano, na fabricação da alegria e em processos de acumulação por aproveitamento. Assim, se instituem nos lugares novas camadas ao capital da pobreza (Massey, 2007; Roy, 2010) a partir de uma governamentalidade cívica e da condução empresarial de condutas. As infraestruturas de energia solar capilarizam empresas globais, voluntariado corporativo e um greenwashing urbano e realizam aquilo que negam veementemente: assistencialismo, turismo de favelas e substituição do Estado tomando as mudanças climáticas nas fronteiras urbanas como novas fronteiras de negócio.

Ana Clara Chequetti da Rocha Duarte (UERJ) – O mercado de infraestrutura verde e a produção de risco socioambiental na favela: um estudo do Teleférico da Providência

Resumo: Esse trabalho visa abordar a emergência de um mercado de “infraestruturas verdes” de mobilidade nos projetos de urbanização e o avanço de uma agenda “ecológica” na política urbana da cidade do Rio de Janeiro a partir do estudo etnográfico da política de construção do teleférico do Morro da Providência nos anos 2010. A construção de teleféricos em regiões de favela foi estimulada através da sua circulação como “boa prática” do urbanismo para urbanização de zonas informais no Sul Global inspirada na experiência de Medellín, fazendo com que dezenas de cidades da América Latina construíssem suas versões. O Brasil ergueu seus primeiros teleféricos urbanos em duas regiões de favelas do Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão (2009) e no Morro da Providência (2010). Esse estudo acompanhou as dinâmicas entre grupos empresariais, construtoras, bancos financiadores, arquitetos, agências multinacionais, setores da administração pública e políticos envolvidos no projeto de construção do Teleférico da Providência e busca demonstrar como as políticas de renovação urbana se entrelaçam com uma agenda e um mercado verde que desponta nas últimas décadas disputando o governo das grandes cidades latinas em expansão.

João Felipe Pereira Brito (USP) & Isabela Vianna Pinho (UFSCar) –Ancoradouros e ancoragens: infraestruturas de mobilidades em regiões portuárias de Rio de Janeiro e Santos

Resumo: Esta proposta coloca em diálogo duas pesquisas distintas: uma de pós-doutorado sobre a cidade do Rio de Janeiro e outra de doutorado sobre a cidade de Santos. As duas investigações possuem pontos em comum: (i) são etnografias realizadas em regiões portuárias; (ii) apostam nas mobilidades como grade analítica; e (iii) compartilham o interesse sobre infraestruturas e desigualdades urbanas. Trazemos contribuições ao campo da Sociologia Urbana, em diálogo com a “virada das mobilidades” (Freire-Medeiros e Lages, 2020; Sheller, 2014; 2017; Sheller e Urry, 2006; Gregory e Urry, 1985) e a “virada infraestrutural” (Cavalcanti e Araujo, 2023; Larkin, 2020; Vailati e D’Andrea, 2020; Appel et al., 2018; Venkateshan et al., 2017). O trabalho tem o intuito de contribuir para pesquisas interessadas nas dimensões políticas das mobilidades e das infraestruturas urbanas (Freire-Medeiros, Magalhães e Menezes, 2023). Enxergamos os portos e suas respectivas regiões portuárias como ancoradouros (Freire-Medeiros e Pinho, 2024) – recurso analítico e descritivo –, nos quais diariamente atravessam diversos fluxos de mercadorias, capitais, pessoas e informações. Neles convergem circuitos de mobilidades que, ao atravessá-los, “são transmutados e projetados em várias direções” (Freire-Medeiros e Pereira da Silva, 2019, p. 82). Tomamos quatro infraestruturas nas regiões portuárias do Rio e de Santos como ancoragens (Urry, 2003; Hannam et al. 2006), que sustentam o cotidiano da cidade e dos portos.

Carlos Freire da Silva (UFPA), Lucas Henrique Navegantes Lobato (UFPA) & Agnis Mirian da Silva Corrêa (UFPA) – Belém e a COP-30: megaevento e reformas urbanas de saneamento ambiental

Resumo: A cidade de Belém do Pará foi escolhida para sediar a COP-30 na Amazônia. Diante da perspectiva de acolher milhares de pessoas de diversos lugares do mundo, uma série de reformas urbanas estão em curso para procurar apresentar uma cidade ambientalmente resiliente e construir um legado para Belém. Em uma das capitais brasileiras que apresenta os piores índices de saneamento básico, a relação com os rios e córregos urbanos é um importante crivo das desigualdades sociais, opondo a elite que se concentra nas regiões mais altas, e a população mais pobre nas áreas de baixadas. O objetivo da pesquisa é discutir como essas reformas são acionadas a partir da lógica da urgência do megaevento e reforçam tendências históricas do processo de produção do espaço urbano de Belém. A pesquisa é realizada a partir da análise dos projetos, dos dados dos setores censitários do IBGE atingidos pelas reformas, pesquisa de campo e levantamento bibliográfico. Vemos três tendências distintas a partir das políticas de saneamento ambiental: os canais das Docas e da Tamandaré com a proposta de parques lineares voltadas para a mobilidade de turistas e da elite da cidade; a bacia da Estrada Nova como vetor de expansão do mercado imobiliário no bairro do Jurunas; e os canais do Rio Tucunduba nos bairros do Guamá e da Terra Firme como obras voltadas para o tráfego de veículos, afastando as pessoas das relações que desenvolvem com os rios.

Mariana Pinheiro de Carvalho (USP) – De “Abaixo o Minhocão!” para “10 coisas que eu amo no Minhocão”: as representações sobre o Elevado João Goulart em reportagens jornalísticas nas primeiras décadas do século XXI

Resumo: Este trabalho analisa o Elevado João Goulart, infraestrutura de mobilidade conhecida como “Minhocão”, que atravessa o distrito de Santa Cecília, na região central da cidade de São Paulo (SP, Brasil). Na literatura nacional, existem pesquisas sobre essa infraestrutura em diversos campos disciplinares, dos Estudos Urbanos à Engenharia, abrangendo distintas perspectivas sobre a temática da mobilidade. Este trabalho visa contribuir com os estudos de Sociologia Urbana, compreendendo as infraestruturas de mobilidade sob a ótica das representações sociais. São analisados os discursos sobre o Minhocão publicados na mídia (especificamente no jornal Folha de São Paulo) ao longo das duas primeiras décadas do século XXI. Considerando a dimensão social da linguagem, as reportagens publicadas no período analisado revelam um deslocamento importante nas representações sociais sobre o Minhocão por volta de 2012. Até este período, o Elevado era compreendido predominantemente como “apartheid” ou “cicatriz urbana”, isto é, como barreira que cindia o território de Santa Cecília; no entanto, esse discurso transformou-se sucessivamente, elegendo o Minhocão como protagonista de uma renovação da região, representado principalmente por meio das dinâmicas culturais e das apropriações presentes nele.

Felipe César Augusto Silgueiro dos Santos (UEM) – Pelo andar na cidade: Reflexões acerca da mobilidade cotidiana no contexto fragmentário

Resumo: A presente proposta de texto tem por objetivo dialogar sobre a capacidade do andar na cidade média fragmentada e como esta tem sido deturpada por um processo excludente.